Já na Pérsia antiga se faria o pastel, mas não queremos ir tão longe no passado. Vergílio Nogueira Gomes, transmontado, professor, escritor e investigador da história da alimentação e gastronomia, diz-nos que o caderno de receitas da Infanta Dona Maria (1533-1577), já encontramos os pastéis de carne, embora sem ser de massa folhada, arte culinária provavelmente desconhecida na época. Mas não por muito tempo, esclarece-nos o mesmo autor no mesmo texto,
pastel e pastéis. Um livro de 1611, do chefe de cozinha que acompanhou o rei Filipe II de Espanha quando este tomou conta do governo de Portugal, apresenta receitas de pastéis confecionados com massa folhada.
E a Chaves, quando chegou o pastel? Nesta terra de forte legado romano, a cultura gastronómica da massa folhada com recheio de carne ganhou nova vida e nome próprio, no século XIX. À falta de registo mais fiel, a origem do Pastel de Chaves fixou-se no ano de 1862, data em que a flaviense Teresa Félix Barreira, fundadora da Casa Antigo Pasteleiro, terá comprado por uma libra a receita dos pastéis de carne que uma vendedora de origem desconhecida vendia pelas ruas da cidade. Muito apreciados, os estranhos pastéis em formato de meia lua não mais deixaram de se produzir na cidade.
Em 1909, a receita original passou para as mãos de D. Teresa de Jesus que trabalhou este pastel de exceção durante 45 anos, tornando-o conhecido em Chaves. Para a sua fama nacional e internacional terá contribuído António Carmona, 11º Presidente de Portugal. Conta o autor do blogue
Chaves Antiga, embora não tendo nascido em Chaves, Carmona sempre afirmou as suas raízes flavienses. A sua esposa, natural de Chaves, frequentava a pastelaria de Teresa de Jesus, a qual passou a fornecer também a presidência da República.
Em 1939, escrevia o médico e escritor brasileiro Afrânio Peixoto, "Lembro-me de tudo em Chaves, sua arte, sua história, sua tradição. Mas a minha fraqueza ou a sua força, foram os Pastéis." (in Viagens na minha Terra, Vol. I).
Capazes de fazer perdurar a memória desta iguaria gastronómica de século e meio, os flavienses viram reconhecido o Pastel de Chaves, em 2012, como Produto de Indicação Geográfica Protegida.